Preto é cor de que?






*Por Sheila Stiller



Nasci preto cor,

Escuridão,

Solidão.

Minha casca, descasca não.

Dentro de mim,

Existem cores

Dentro de mim tem coração.

Nasci como Zumbi,

Na favela sem palmares

Guerreiro com fama de arruaceiro.

Estudante sem caderno,

Em uma escola sem livros

E pausas sem brincadeiras

Aulas sem professor,

Salas sem cadeira.

Nasci preto,

Preto é cor de que?

Preto é cor de quem?

Preto é quem é de cor.

É cor de tristeza, dias sem sol,

Noites sem luar.

Todo nome com preto

Vem pra amaldiçoar.

Do morro desci

Detrás das grades fui parar.

Não sou traficante, nem fumador,

Nem roubo, nem mato Doutror.

Sou pobre, sou preto

Sou homem trabalhador.

Me bateram sem porquê.

Nem me deixaram falar

E se falasse de nada adiantaria

Não tem branco para escutar.

Só me resta calar esse grito

O ódio meu peito incendiar.

Eu sou preto sim Senhor,

Cor escura, cor de carvão,

Olhos amarelados, boca vermelha,

Pé no samba, bom de colchão,

Lá no morro eu sou um rei,

Já na cidade, eu sou ladrão.

Me diga o que roubei, meu Patrão?

Eu tenho fome, dívidas para pagar,

Não tenho dinheiro, nem ouro algum,

Mas não sou malandro,

Nem vagabundo,

Trabalho na obra, no bar, no sertão,

Pegar o que é dos outros?

Isso eu não faço não.

Se minha cor clareasse,

Meu cabelo alisasse,

Você acreditaria nesse irmão.

Sendo preto de nascença,

Recebo essa sentença

Pois não tenho valor.

Sou jogado nessa cela,

Sem juiz e advogado,

Se morrer ninguém espera,

Nem comenta ou se intera.

Quantas mães choram seus pretos desaparecidos,

Baleados na bocada,

Mortos nas baladas

O que fizeram afinal?

Nasceram vestidos de preto

Esse é um destino fatal.

Um dia eu cansei,

Queria com cores brincar,

Mas nesse mundo dividido,

Não temos parques para sorrir

Nem esperança para sonhar.

O colorido é esquecido,

Nem tenho forças para lutar.

Para que viver na trevas

Que me enfiaram?

Essa injustiça social,

Tanto ódio

Dor, destruição

Se trabalho sou bandido

Se existo, estou perdido

Estão me demolindo

Como sair da maldição.

Não podemos descascar nossas cascas,

Andarmos sem cor, só compaixão?

Colorindo o destino

Abraçados, damos as mãos.

Sem preto, nem branco ou incolor.

Um só caminho,

Viver sem discriminação...

Hoje canto por várias memórias

Tantas mortes, traição.

Canto pelos pretos assassinados,

Pelos discriminados,

Humilhados, descartados.

Grito pelo horror,

Pela dor,

Por essa canção cansada,

Minha pele estragada que o mundo sujou.

Vamos acabar com a hipocrisia,

Com essa covardia

Que o homem preto por dentro criou.



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* Sheila Stiller nasceu em 1973, em Salvador, Bahia e mora há 25 anos na Alemanha. Estudou Letras na Universidade Johannes Gutenberg, em Mainz, e trabalha na área de aviação desde 1999. A autora começou a escrever durante sua infância e resolveu começar a postar seus textos em 2016, na página de Facebook intitulada Cidadã do Mundo (https://www.facebook.com/contosvssonhos). Preocupada com a integração das brasileiras na Alemanha, Stiller fundou o grupo Papo Aberto em Frankfurt, com a finalidade de empoderar e incentivar as mulheres no país. Casada há 18 anos, tem dois filhos provenientes desta relação. Seu maior sonho é criar um café literário brasileiro em sua cidade, para mostrar aos alemães as riquezas de sua terra natal.

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